Impressões

Filed Under (Crônicas, Humor) by Baixinho on 07-06-2008

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Bom dia, eu gostaria de cortar meus cabelos. Qual o preço?

É R$ 20,00, moço. Tem alguma preferência? – me responde a recepcionista, não muito bonita, mas bem gostosinha.

Quero curto, mesmo.

Mas tem alguma preferência, moço?

Curto, moça!

Não, moço, eu tô falando do profissional! Tem alguma preferência?

Não, tanto faz. Indique alguém.

Tá certo, vou chamar. JO-AAAAAAAAAAAA-NAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!!!

Nesse momento, sinto que um dos meus tímpanos reage sensivelmente ao leve “ruído” da atendente. Olho para dentro do salão e não vejo ninguém vindo, então me sento na poltrona. Passados 2 minutos, a atendente olha para mim, se vira para dentro do estabelecimento, e eu instintivamente levo as mãos aos ouvidos: JO-AAAAAAAAAAAA-NAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!!!

Alguém responde lá de dentro: - Tá terminando a “ignal” (sic) aqui. Vai já.

Beleza, num tinha mesmo o que fazer, meu hobby é esperar sentado num sofá de salão de beleza sentindo aquele aroma agradável de produtos de cabelo. Vamos esperar a Joana. Deve ser uma delicinha. Na hora lembrei todas as garotas que eu conhecia com esse nome. Duas eu já tinha pego. Duas gatas, por sinal.

– Moço, vou chamar outro profissional, ok?

– Se a Joana não for demorar muito, eu espero – minhas segundas intenções venciam a minha pressa.

– Okey.

Passados mais cinco minutos, minha paciência se esgota, e eu decido que conhecer a Joana não vai valer a demora:

Moça, será que você poderia chamar outra pessoa: estou com um pouco de pressa.

– Peraí, moço, que vou chamar ele.

A atendente entra numa sala e eu fico me perguntado o porquê de ela chamar a Joana de “ele”. Mas minha dúvida não demora muito tempo: eis que a moça vem vindo acompanhada de… Peraí, e a Joana?

– Olha, Joana, você demorou muito, eu tava vendo a hora ter que chamar outra pessoa (é, garotada, até num salão de beleza a gente vê o “jeitinho brasileiro” de favorecer os amigos). Sorte que o moço bonito (juro que ela disse isso) aqui só queria se fosse com você – diz a recepcionista, se dirigindo a um protótipo de Ângela Bismarchi, com peitos de Pâmela Anderson e cabelos multicoloridos.

– Õem, gato… Iaí, vai ser o quê? – me pergunta Joana, dando aquela olhada raio-X completo, que até então só tinha visto meus amigos fazerem para as gatas mais gostosas que passavam na nossa frente. E eu, puto da vida, respondo:

– Só um cortezinho rápido nos cabelos, estou com um pouco de pressa.

– Aeeeemmmm, desculpa, gato, se eu soubesse que era um cliente tão lindo teria vindo correndo.

Acompanho Joana para a cadeira, nem um pouco satisfeito com o elogio recebido.

– Como é que você, prefere? – me pergunta, e eu começo a prestar atenção que tudo o que ela fala tem um sentido, digamos assim, subliminar por trás (no bom sentido).

– Curto simples, sem nada demais. Passa a “3” nas laterais e picota, quer dizer, corta baixinho em cima.

Podeixar! Você vai adorar: picotar é comigo mesma. – puta que o pariu, porque eu fui dizer essa palavra? Agora vai ficar achando que estou dando cabimento.

Dez minutos depois:

– Terminei, lindo, você gostou também? – me pergunta, cheia de duplos sentidos. Mas o corte ficou realmente bacana, não ia ser injusto:

– Ficou pau… aliás, ficou massa.

– Aeeeemmmm, pode dizer “pau” mesmo, adoro quando fica pau! Vamos lavar?

– Precisa não, estou atrasado.

– É rapidinho… – diz Joana, me empurrando para a cadeira de lavagem de cabelo – Passar só um shampoozinho.

O “shampoozinho” era até cheiroso, mas Joana não tinha fim de terminar a dita lavagem, e eu começava a sentir que na verdade ela estava fazendo uma massagem quase erótica na minha cabeça.

– Tá bom, pode tirar o shampoo.

– Ouuuuu, tava tão bom. Fica aí que vou pegar o creme.

Puta que o pariu, creme é o caralho, Joana queria era ficar me alisando. Eu já estava rezando para não passar um conhecido por ali: zoação pro resto da vida… Joana pega o dito creme, e alisa minha cabeça com a mesma cara com que uma ninfomaníaca faria sexo oral após um ano de abstinência. Muito puto e atrasado pacas, peço pra Joana terminar logo:

– Tá bom, lindo, vou enxugar agora.

– Não pode deixar que eu mesmo enxugo, me dê a toalha. Pago a você?

– Se fosse para mim, já tava pago! Mas é na recepção.

– Amiga, faz um descontão pra ele. – diz a Joana à recepcionista.

– Precisa não. Tá aqui o dinheiro. Obrigado.

– Xauzinho, gato.

Despeço-me e saio quase correndo do salão, não sei se mais pelo atraso, ou mais para sair de perto da Joana. Ao sair, ainda sinto um olhar fixo na minha bunda, e penso seriamente em virar para trás e estirar o dedo para Joana. Mas, pensando bem, ela ia gostar.

Não sei por que, mas saí de lá com a ligeira impressão que a Joana era um puta dum veadão.

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