O estagiário é o último grau da escala social, atrás até das prostitutas, bóias-frias, sem-teto, sem-terra e mendigos. Não acredita? Pois confira abaixo o breve cálculo (pesquisa certamente feita por um estagiário, que é a verdadeira classe trabalhadora do país):
Um sinal de trânsito muda de estado em média a cada 30 segundos (trinta segundos no vermelho e trinta no verde). Então, a cada minuto um mendigo tem 30 segundos para faturar pelo menos R$ 0,10, o que numa hora dará: 60 x 0,10 = R$6,00.
Se ele trabalhar 8 horas por dia, 25 dias por mês, num mês terá faturado: 25 x 8 x 6 = R$ 1.200,00.
Será que isso é uma conta maluca?
Bom, 6 reais por hora é uma conta bastante razoável para quem está no sinal, uma vez que, quem doa nunca dá somente 10 centavos e sim 20, 50 e às vezes até 1,00.
Mas, tudo bem, se ele faturar a metade: R$ 3,00 por hora terá R$600,00 no final do mês, que é o salário de um estagiário com carga de 35 horas semanais ou 7 horas por dia.
Ainda assim, quando ele consegue uma moeda de R$1,00 (o que não é raro), ele pode descansar tranqüilo debaixo de uma árvore por mais 9 viradas do sinal de trânsito, sem nenhum chefe pra encher por causa disto.
Mas isto é teoria, vamos ao mundo real. De posse destes dados fui entrevistar uma mulher que pede esmolas, e que sempre vejo trocar seus rendimentos na Panetiere (padaria em frente ao CEFET). Então lhe perguntei quanto ela faturava por dia. Imagine o que ela respondeu?
É isso mesmo, de 35 a 40 reais em média o que dá (25 dias por mês) x 35 = 875 ou 25 x 40 = 1000, então na média R$ 937,50 e ela disse que não mendiga 8 horas por dia.
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Foda…
Casamos novos. Ela com 19 e eu com 20 anos de idade. Lua-de-mel, viagens, mobílias na casa alugada, prestações da casa própria e o primeiro bebê. Anos oitenta e a moda era ter uma filmadora do Paraguai. Sempre tinha um vizinho ou amigo contrabandista disposto a trazer aquela muambazinha por um preço módico. Ela tinha vergonha, mas eu desejava eternizar aquele momento.
Invadi a sala de parto com a câmera no ombro e chorei enquanto filmava o parto do meu primeiro filho. Todo mundo que chegava lá em casa era obrigado a assistir ao filme. Perdi a conta das cópias que fiz do parto e distribuí entre amigos, parentes e parentes dos amigos. Meu filho e minha esposa eram os meus orgulhos. Três anos depois, novo parto, nova filmagem, nova crise de choro.
Como ela categoricamente disse que não queria que eu filmasse, invadi a sala de parto mais uma vez com a câmera ao ombro. As pessoas que me conhecem sabem que havia apenas amor de pai e marido naquele ato. O fato de fazer diversas cópias da fita era apenas uma demonstração de meu orgulho.
Nada que se comparasse ao fato de ela, essa semana, invadir a sala do urologista, câmera ao ombro, filmando o meu exame de próstata. Eu lá, com as pernas naquelas malditas perneiras, o cara com um dedo (ele jura que era só um! ) quase na minha garganta e minha mulher gritando: Ah! Doutoor! Que maravilha! Vou fazer duas mil cópias dessa fita! Semana que vem estou enviando uma para o senhor!
Meus olhos saindo da órbita a fuzilaram, mas a dor era tanta que não conseguia falar. O miserável do médico girou o dedo e eu vi o teto a dois centímetros do meu nariz. A mulher continuou a gritar, como um diretor de cinema: Isso, doutor! Agora gire de novo, mais devagar. Vou dar um close agora!!
Alcancei um sapato no chão e joguei na maldita.
Agora, estou escrevendo este e-mail, pedindo aos amigos que receberem uma cópia do filme, que o enviem de volta para mim. Eu pago o reembolso.
(Luiz Fernando Veríssimo.)
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Lido no Bicuda na Canela.
– Bom dia, eu gostaria de cortar meus cabelos. Qual o preço?
– É R$ 20,00, moço. Tem alguma preferência? – me responde a recepcionista, não muito bonita, mas bem gostosinha.
– Quero curto, mesmo.
– Mas tem alguma preferência, moço?
– Curto, moça!
– Não, moço, eu tô falando do profissional! Tem alguma preferência?
– Não, tanto faz. Indique alguém.
– Tá certo, vou chamar. JO-AAAAAAAAAAAA-NAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!!!
Nesse momento, sinto que um dos meus tímpanos reage sensivelmente ao leve “ruído” da atendente. Olho para dentro do salão e não vejo ninguém vindo, então me sento na poltrona. Passados 2 minutos, a atendente olha para mim, se vira para dentro do estabelecimento, e eu instintivamente levo as mãos aos ouvidos: JO-AAAAAAAAAAAA-NAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!!!
Alguém responde lá de dentro: - Tá terminando a “ignal” (sic) aqui. Vai já.
Beleza, num tinha mesmo o que fazer, meu hobby é esperar sentado num sofá de salão de beleza sentindo aquele aroma agradável de produtos de cabelo. Vamos esperar a Joana. Deve ser uma delicinha. Na hora lembrei todas as garotas que eu conhecia com esse nome. Duas eu já tinha pego. Duas gatas, por sinal.
– Moço, vou chamar outro profissional, ok?
– Se a Joana não for demorar muito, eu espero – minhas segundas intenções venciam a minha pressa.
– Okey.
Passados mais cinco minutos, minha paciência se esgota, e eu decido que conhecer a Joana não vai valer a demora:
– Moça, será que você poderia chamar outra pessoa: estou com um pouco de pressa.
– Peraí, moço, que vou chamar ele.
A atendente entra numa sala e eu fico me perguntado o porquê de ela chamar a Joana de “ele”. Mas minha dúvida não demora muito tempo: eis que a moça vem vindo acompanhada de… Peraí, e a Joana?
– Olha, Joana, você demorou muito, eu tava vendo a hora ter que chamar outra pessoa (é, garotada, até num salão de beleza a gente vê o “jeitinho brasileiro” de favorecer os amigos). Sorte que o moço bonito (juro que ela disse isso) aqui só queria se fosse com você – diz a recepcionista, se dirigindo a um protótipo de Ângela Bismarchi, com peitos de Pâmela Anderson e cabelos multicoloridos.
– Õem, gato… Iaí, vai ser o quê? – me pergunta Joana, dando aquela olhada raio-X completo, que até então só tinha visto meus amigos fazerem para as gatas mais gostosas que passavam na nossa frente. E eu, puto da vida, respondo:
– Só um cortezinho rápido nos cabelos, estou com um pouco de pressa.
– Aeeeemmmm, desculpa, gato, se eu soubesse que era um cliente tão lindo teria vindo correndo.
Acompanho Joana para a cadeira, nem um pouco satisfeito com o elogio recebido.
– Como é que você, prefere? – me pergunta, e eu começo a prestar atenção que tudo o que ela fala tem um sentido, digamos assim, subliminar por trás (no bom sentido).
– Curto simples, sem nada demais. Passa a “3” nas laterais e picota, quer dizer, corta baixinho em cima.
– Podeixar! Você vai adorar: picotar é comigo mesma. – puta que o pariu, porque eu fui dizer essa palavra? Agora vai ficar achando que estou dando cabimento.
Dez minutos depois:
– Terminei, lindo, você gostou também? – me pergunta, cheia de duplos sentidos. Mas o corte ficou realmente bacana, não ia ser injusto:
– Ficou pau… aliás, ficou massa.
– Aeeeemmmm, pode dizer “pau” mesmo, adoro quando fica pau! Vamos lavar?
– Precisa não, estou atrasado.
– É rapidinho… – diz Joana, me empurrando para a cadeira de lavagem de cabelo – Passar só um shampoozinho.
O “shampoozinho” era até cheiroso, mas Joana não tinha fim de terminar a dita lavagem, e eu começava a sentir que na verdade ela estava fazendo uma massagem quase erótica na minha cabeça.
– Tá bom, pode tirar o shampoo.
– Ouuuuu, tava tão bom. Fica aí que vou pegar o creme.
Puta que o pariu, creme é o caralho, Joana queria era ficar me alisando. Eu já estava rezando para não passar um conhecido por ali: zoação pro resto da vida… Joana pega o dito creme, e alisa minha cabeça com a mesma cara com que uma ninfomaníaca faria sexo oral após um ano de abstinência. Muito puto e atrasado pacas, peço pra Joana terminar logo:
– Tá bom, lindo, vou enxugar agora.
– Não pode deixar que eu mesmo enxugo, me dê a toalha. Pago a você?
– Se fosse para mim, já tava pago! Mas é na recepção.
– Amiga, faz um descontão pra ele. – diz a Joana à recepcionista.
– Precisa não. Tá aqui o dinheiro. Obrigado.
– Xauzinho, gato.
Despeço-me e saio quase correndo do salão, não sei se mais pelo atraso, ou mais para sair de perto da Joana. Ao sair, ainda sinto um olhar fixo na minha bunda, e penso seriamente em virar para trás e estirar o dedo para Joana. Mas, pensando bem, ela ia gostar.
Não sei por que, mas saí de lá com a ligeira impressão que a Joana era um puta dum veadão.